"O tempo dirá", tudo se resumia em suas palavras, porém nada dele saía, estava tendo um caso com o silêncio, não havia sequer sussurro, espirro, tosse ou qualquer onomatopéia que pudesse dizer algo. Se sentia idiota ao estar no mesmo lugar de sempre ou até outro ponto de encontro que ele passa todos os dias, para nem mesmo ouvir um ruído, com o silêncio predominando. Tinha que pegar uma fila de espera para ouvir as sábias palavras do tempo sobre o que estava por vir e o que seria daqui pra frente. Estava numa sala de espera lotada, em pé porque já não havia lugares, os bilhetes tinham quase esgotado, pegara o penúltimo em mãos, o qual o número escrito era um bilhão, o bilhete inicial por sinal não era o número um, diga-se de passagem para os otimistas de plantão, e sim o 0,001.
Como sabia que ia demorar, dera uma volta e depois retornaria para checar em qual número estava. E ao esquecer do tempo e das suas decisões, o silêncio se soltava aos poucos, fazendo com que o tempo soltasse pistas pedaços de palavras aleatoriamente, como uma pista, mas uma pista para um Sherlock, o que complicava, confundia e capaz de ter qualquer interpretação que convém. Porém o Doutor Tempo sempre alertava "Espere ser atendido para tirar qualquer conclusão". Espere, espere, espere! NÃO QUERO ESPERAR O TEMPO! Gritava no meio da sala e todos olhando com cara de espanto. Mal sabia que muitos dariam tudo para ao menos ter um daqueles papéis em mão, mesmo que fosse o um bilhão. Queria tomar suas atitudes sem o tempo para lhe "atrapalhar" ou controlar, saber a resposta sem ele.
Mas qualquer passo que tomasse, maneira que agisse, um pingo do tempo estaria lá. O Doutor mesmo se indagava "Vocês mesmo ficam tanto tempo nessa sala querendo respostas, mas afinal, qual a pergunta? Vocês sabem? Não há maneira d'eu responder afirmações". Era por isso que aquela fila demorava tanto?



Mudou de casa há quase dois meses e por incrível que pareça, tudo estava entrando nos eixos, como nunca antes. No fim do ano passado Clarice prometera que aquele ano que estava por vir seria de grandes mudanças e conquistas, que tudo iria enfim dar certo e prometeu com todas suas forças que restavam depois de tanta batalha perdida que houve em sua vida. Sem pretensão alguma, sem sua lista de metas como todo ano e planejamentos, tudo que ela prometera estava virando realidade, simples obra do destino. Metas maiores que ela imaginara um dia alcançar a ponto de riscá-las da sua mente e suas listinhas de começo de ano, enfim elas estavam se tornando realidade. A felicidade a contagiava, junto a confiança e pensamento positivo.

Mas ainda faltara duas coisas, que realmente havia traçado como uma meta com toda força. Uma era meta desde muito muito pequenina, apesar de nunca ter crescido muito e continuar pequena, tal que relacionada à sua faculdade, seu sonho, queria passar com bolsa na Universidade renomada de Moda da sua cidade e como tantos sonhos inalcançáveis estavam passando a ser alcançáveis, por que não esse?

O segundo, ah, tinha relação com sentimentos, paixão, com o garoto que mexeu com Clarice como nenhum outro em anos, mas tinham de ir devagar, para preservar cada momento e sua amizade também, deixar o destino pregar as cartas finais em cima da mesa, não pregar uma peça, esperava ela, até porque o destino já havia pregado peças demais em Clarice, o suficiente para se divertir e ter ataques de risos com os resultados. Ela queria ouvir sentimentos mais fortes, paixão, ciúme, indiretas sobre o que ele sente, um pouco mais de certeza e recíproco  porque afinal, estava tudo tão bom, por que não tentar e quem sabe melhorar mais ainda?


Tinha se dado conta que havia deixado de lado o desinteressante que dizia coisas sobre ela tal que "Você é muito complicada", não sabendo lidar com a diferença, o fato de se expressar, ser independente, tomar a atitude e Lúcia ser uma mulher tão interessante do seu lado, que ele sumia com o seu brilho. Logo, ela encontrou o interessante, Paulo.
Lúcia não queria viver uma mentira, nem mesmo acreditar que ela pudera ser verdade, mas essa missão parecia uma tanto quanto complicada ao observar os fatos e acontecimentos. Paulo era artístico, envolvente, amigo, carinhoso, não via problema em cuidar dela e se importar principalmente com seus sentimentos, contar piadas e achava até mais interessante ela ser tão interessante, diferente e cheia de atitude. Ele já havia a apresentado à sua família na páscoa, dera presente, conselhos e elogios. Se comunicavam todos os dias,  sentiam a química em seus corpos, tinham até "pseudo-planos" para o possível futuro próximo.
Ela não sabia o que estava por vir e assim como a música "Te ver e não te querer é improvável, é impossível, te ter e ter que esquecer é insuportável dor incrível" era impossível acreditar que tudo aquilo era mentira, ou pudera ser. Seus próprios pensamentos a enganavam e trapaceavam para ficar mais difícil distinguir o que de fato era aquilo o que estavam vivendo, cada parte do seu corpo dizia uma coisa, mas ela estava feliz como nunca, e isso que importava.
Lúcia era uma mulher de atitude, opinião forte e que gostava de se expressar, ele não tentava vetar ou censurar suas opiniões, sempre de ouvidos à escuta, braços abertos, cabeça aberta para entendê-la.  Podiam conversar normalmente, sem medo de serem eles mesmos, afinal eram tão parecidos e tão diferente, e essa diferença louca que é divertido.


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