Nicole se achava louca. Queria poder ter um psicólogo ou um psiquiatra com ela em todos os momentos, a ajudando a dar todos os passos, dos primeiros aos últimos. Os últimos que não queria que chegasse nunca. Tinha medo. Medo de dormir. Medo de morrer. Medo de não conseguir acreditar e de acreditar ao mesmo tempo. Se confundia o tempo todo. Ao fechar os olhos, parar para pensar no futuro, vinha as dores, o choro reprimido e o medo escondido. Tinha vontade de chorar o resto de sua vida só de imaginar. Se sentia uma filosofa com tantas perguntas sem respostas. Seu estomago embrulhava tanto, como se quisesse regurgitar todo o medo, o pavor que passava por todos os ossos e sangue. Queria nunca ter ouvido a palavra morte, e nem saber o significado. “A única certeza no mundo é a morte”, mas que certeza filha da puta, me desculpe as palavras. Pra que Nicole iria querer essa certezas? Para se auto flagelar até esse momento chegar? Podia pelo menos saber quando seria pra se preparar psicologicamente? Como seria? Com um tiro, afogada, num acidente, de câncer, de aids, de velhice, de coração, na mesa de cirurgia, engasgada e tantas outras maneiras inusitadas. Podia dormir, e de repente não acordar mais. E sabia que não era questão de idade. Pode ser agora, já já ou daqui a pouco. Escondia suas lágrimas com tanta força que era como se o seu coração chorasse e seu corpo enfraquecesse. Ela era forte pra vida, mas não para a morte, para o fim.
Ela sempre foi uma menina controladora, planejava tudo, dos pequenos detalhes aos maiores. Não conseguia lidar com o desconhecido, a amedrontava não saber o que iria acontecer. Não seguia nenhuma religião, e nem acreditava. Mas como queria ter a fé de algumas pessoas, somente para viver em paz e segurança em relação ao futuro. Queria acreditar em reencarnação, céu e inferno, volta a vida. Mas não sabia, só podia acreditar no fim. E a cada ano que passa, desde que descobriu essa existência, que diga-se de passagem completamente desnecessária na vida do ser humano porque alguns segredos têm que se guardar para o bem estar, sua vida nunca mais foi a mesma. Fora focada na sua futura morte.
Ah! Corroía todas suas entranhas, todas suas veias, seu sangue, seu coração e todas as partes do seu cérebro. Era como um pequeno verme, um pequeno vírus sem cura, que entrava pelos seus ouvidos e se impregnava para sempre. Destruindo pouco a pouco todas suas esperanças, seus sonhos, sua coragem. Medo, o medo a consumia. Até choraria para ver se passa, mas já sabia que daqui um mês ou dois teria outra crise. Queria remédios controlados, ou até descontrolados. Queria tarja preta. Drogas, das mais simples até as mais alucinógenas para esquecer desse problema maior. Queria sexo, hetero, gay, bi, ménage, em vários lugares, dos mais sem graça até os inusitados. Era o prazer de viver que em poucas meias horas, ou horas a fariam esquecer dessa tal de morte. Já era uma semi-alcoólatra de plantão, que se envolvia nas drogas, apesar de lícita, o que fazia perder a graça por não ser proibida. Eram drinks e mais drinks diferentes, vodca, rum, absinto, Chopp, tequila que era sua preferida, vinho e champanhe nas ocasiões especiais.

As vezes pensava se realmente colocaria crianças do seu mesmo sangue no mundo, para sofrerem igualmente. Nicole sabia que não iria ignorar seu sofrimento diante dos seus filhos. Que não conseguiria protege-los das perfídias do mundo. E mesmo se tentasse, a própria vida iria lhe mostrar. Iria ouvir dar vida sobre a morte, iriam saber a respeito e a dor seria maior ainda. Devia ser proibido saber que ela existe, deveria ser proibido agir como se fosse natural enquanto você é destruído por esse verme.


Joana era uma garota simples e humilde, com seus sonhos e ambições. dava valor a cada oportunidade e crescimento pessoal. Era comprometida com estudos e objetivos. Nunca nada fora de "mão beijada" e sempre foi que ensinada que "dinheiro não nasce em árvore", aprendera também com sua doce vó a dizer obrigado as coisas mais simples, e disso vinha o valor de gestos também. Sua educação fez com que fosse diferenciada e à frente das pessoas da sua idade, mais madura e responsável. Fazia dela também uma pessoa pensante e até mesmo crítica.
Aos dezoito anos de idade que vivera, agora se indignou e perdeu as esperanças com sociedade. Tanto egoísmo, egocentrismo que a enojava. Contrário de Joana. Não davam valor e não diziam obrigado nem mesmo para um migalha de pão. Ela sentia uma dor no coração, uma raiva ao perceber a existência de pessoas assim. Tinham tudo de "mão beijada" e achavam fielmente que "dinheiro nascia em árvore" sim. Enquanto ela sonhava com a sua bolsa de estudos na faculdade, essas pessoas já ingressaram, pagando uma nota e faltando, se atrasando mais do que ia, dando um valor mínimo, porque há quem pague. Ela fazia curso pré-vestibular há quase um ano para ser a "merecedora" de estar lá, acordava às 4 da matina e estudava e lia bastante. Porém os com "posses" sempre ganham. Como acreditar nessa sociedade?


Um museu cheio de pó de tantas memórias guardadas relembradas e vividas, não seria eu. Se não fosse meu otimismo pessimista ou pessimismo otimista, minha ilusão quando dá tudo errado, ou minha falta de segurando quando tudo está dando tão certo, não seria eu. Se não fosse o cheiro do café na xícara de manhã, cheiro das páginas do meu livro favorito no fim de tarde, meus traços ao desenhar, viajar à outro mundo ao escrever, não seria eu. Se não fosse meu dedo podre, minha esperança, minhas contestações, minha crença no amor, não seria eu.
Se não fosse minha timidez, meu medo de escuro, meu medo de falar no telefone com desconhecidos, amar desenhos tantos quanto as crianças, não seria eu. Se não fosse o tipo de pessoa que se enjoa fácil de tudo e todos, querendo novidades e o surpreendente, alternativo, tanto nos amigos, na aparência, nas idéias, nos livros, não seria eu. Se não fosse minha bagunça arrumada, meus livros de moda, meus lápis de cor, meu amor-ciumento com meu irmão mais novo, não seria eu.
Se não fosse minha impaciência com pessoas que se atrasam, não se importam, não fazem arte não seria eu. Se não fosse as brigas que eu tanto odeio, os abandonos sem querer dos meus amigos, as mudanças, a teimosia, a saudade, o drama e o amor por chocolate não seria eu.

Tá rolando há um tempo já, o meme baseado na música Capitão Gancho da Clarice Falcão, que a minha mana ale me indicou. Eu indico a Mayra do era outra vez amor, Italo do Manuscrito e Beatriz do Alacazam.


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