Só por que o seu coração foi destruído você tem que fazer pouco caso no dos outros? Não dar valor? E os destruir também? Errar é o humano, usamos isso como desculpa para nós mesmos para perdoar erros imperdoáveis e para pedir desculpas e perdão por eles. Mas persistir no erro é burrice e todos estão cientes dessa frase. Por que erram na escolha tanto? Para sofrer mais? Se humilhar? Ser gato e sapato? Submisso a alguém pela aparência e pela forma que ela é sensual? A mesma a que diz eu te amo sem motivo e razão, se faz de louco? Será que sou muito pra trás para uma sociedade moderna ou eles estão inventando problemas pra si mesmo? O que é gostar do seu jeito certo se não estar junto e se aproveitar da companhia do outro? Poder ficar com outras pessoas, ser humilhado, pisado, e jogado no lixo como estrume é o jeito certo?
Letícia já ouvira muitas pessoas dizerem que todos têm um propósito/missão na vida. Mas quem inventou que necessariamente seria algo bom? Poderia haver missões maléficas. Como a de seu próprio pai, Marcello. Se dizia "de Deus", "da paz", "zen", mas se demonstrava do Belzebu, como se estivesse possuído, e sua missão? Acabar com a vida das pessoas, destruir tudo que há de alegre e esperançoso. Todos fugiam dele e o temiam. Ela o enfrentava, jogava seus erros em sua cara, tinha as armas certas, mas ainda assim, os que o temiam a censuravam a usá-las.
Marcello era aceito, por medo. O seu coração, isso é se tiver um, era o mais obscuro e breu que se possa imaginar. Sabia a fraqueza dos humanos, a maior, o choro de uma pessoa. Se fingia de bonzinho e vítima, logo após acabar com mais uma vida da sua lista. O sonho de Letícia era acabar com esse inferno com suas próprias mãos, tinha mil planos em sua mente extraordinária, em como por prática, mas lá vinha a censura novamente.
Ela e todos tinham certeza que em seu enterro, de Marcello, não haveria uma alma viva pra chorar, representar algum amor por ele e muito menos sentir saudade. Alguns podiam ir, mas para comemorar que finalmente aconteceu e transformar aquele enterro numa festa. Tétrico, mas estariam comemorando pela paz que conquistaram sem ele.
Depois de muito tempo sem desenhar, enfim voltei a demonstrar meu dom e minha criatividade. E descobri algo que gosto igual ou mais do que sorrisos. Ah, os olhos, o olhar. Era e sempre foi inconsciente na minha mente. A partir do momento em que comecei a desenhar, prezava pelos olhos. Passava horas com meu doce perfeccionismo os deixando reais e com emoções suficientes, ao desenhar um rosto. O tempo se passava e a minha adoração por olhos continuava mais forte. Agora, desenhava um olho ou olhar, somente, no infinito do papel. Mas por quê? Por que o meu inconsciente pensava assim?
Sempre que uma emoção estava transbordando de mim, lá estava eu desenhando um olhar com essa emoção. Um olhar apaixonado. Um olhar solitário nesse mundo tão grande. Um olhar amedrontado pelo futuro ou passado. Um olhar triste pela guerra, sofrimento ou até pelos próprios pensamentos. Era como se ao olhar naqueles olhos, neles sim, eu poderia confiar. Contar as minhas angústias, medos, traumas; Meus segredos, minhas alegrias e paixões. Era sincero todo o tempo, mesmo sendo só um simples desenho para alguns. Os olhos são a janela da alma, a porta para uma paixão e todos seus sentimentos. Ao olhar neles, não há escapatória das mentiras.
Os próprios sentimentos não aguentam ficar aprisionados ao corpo e coração e tentam escapar pelos olhos. Revelando então a identidade mais secreta que há dentro de uma pessoa. Arrepiando-se dos pés a cabeça no momento da fuga de seus sentimentos pelos olhos... Chamado lágrima.
